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riscos_e_rabiscos

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A História dos Mortos

 

Quando a minha mãe era pequena e ainda vivia Além-Tejo, morreu um rapaz na terra. Era costume lá na terra, atarem as mãos dos mortos com uma fita, em posição de oração. Desconheço a razão. Talvez para chegarem mais rapidamente junto do criador, talvez para expiar os pecados, talvez… mas isto sou só eu a especular.
 
Estava a minha mãe e os restantes habitantes da aldeia a velar o morto quando, subitamente, a fita se desata e caiem as mãos do morto. Isto causou tal comoção e impressionou sobremaneira a minha mãe, que a partir desse dia ela nunca mais foi capaz de lidar com a visão ou a ideia de um morto.
 
Não vai a funerais a não ser àqueles que nunca poderá faltar, dos entes mais queridos. De resto, se ela pressentir ou souber da presença de um morto, fica aflita e a imaginar mil e uma maneiras de contornar a situação, de não ter de passar por ela.
 
Anteontem morreu um vizinho velhote que morava no piso abaixo do meu. Muita idade, cancro nos pulmões e muita solidão. A mulher de vez em quando lembra-se e dá umas choradinhas, género carpideira, pois quando ele precisava, ela andava metida em bailes, excursões, cantos corais e ranchos folclóricos. O velho esteve 24 horas à espera que viesse o delegado de saúde. Pobre homem que já devia ter descansado há mais tempo.
 
Para a minha mãe isto foi um problema valente. Para sair e entrar em casa, desenvolveu um método quase cirúrgico com receio que o morto esteja a ser levado de casa e ela se cruze com ele ao regressar.
 
Singularidades de uma mãe que é tesa e teimosa que nem uma mula, determinada e com a aceleração no máximo (turbo mesmo…) mas quando toca a estes assuntos , regressa ao seu estado de menina.